
Testes do novo modelo são feitos na Barreira do Inferno, em Parnamirim, na Grande Natal — Foto: FAB/Divulgação
Lançar uma cápsula acima de 100 km de altitude até a microgravidade, realizar experimentos científicos e recuperar as amostras intactas à Terra por meio de um sistema de paraquedas que permitirá um novo modelo de análise dos resultados.
É isso que o Brasil testa com a Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), uma espécie de laboratório espacial acoplado a um foguete. O lançamento será feito na Barreira do Inferno, em Parnamirim (RN), o centro aeroespacial mais antigo da América do Sul. O nome faz referência às falésias avermelhadas da região.
A operação, que envolve a Força Aérea Brasileira (FAB), começou no dia 31 de agosto e deve ser concluída no próximo dia 19.
Se o teste for concluído com sucesso, esta será a primeira vez que uma pesquisa com plataforma brasileira fará o resgate dos itens lançados para análise após condições reais de voo. A forma mais comum de transmissão das pesquisas brasileiras hoje é a telemetria (coleta de dados a distância).
Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), as condições de microgravidade permitem o desenvolvimento de experimentos científicos e tecnológicos, como estudos de novos materiais, de processos de combustão, de medicamentos e de agricultura espacial.
🌌O que é a microgravidade? A microgravidade não representa a ausência total de gravidade, mas sim, uma condição em que sua influência é significativamente reduzida. Nesse ambiente, fenômenos físicos e químicos ocorrem de forma distinta, permitindo, por exemplo, uma cristalização mais uniforme de moléculas. Esse comportamento é especialmente relevante para pesquisas nas áreas farmacêutica, alimentícia e de materiais.
Ex-servidor da Agência Espacial Brasileira (AEB) e autor dos livros “Agência Espacial Brasileira: Um diagnóstico de Gestão” e “Brazilian Space: 15 Anos de Espaço e Informação”, o mestre em Mecatrônica Rui Botelho explica que a cristalização dos medicamentos em microgravidade, por exemplo, ajuda a eliminar as imperfeições nas estruturas moleculares geradas em solo.
Um exemplo recente do impacto desta descoberta foi a missão da Varda Space Industries, em 2023, que conseguiu cristalizar o medicamento Ritonavir, utilizado no tratamento de pacientes com HIV, em um laboratório espacial.
“Certos cristais quando são produzidos artificialmente aqui na Terra não são cristais perfeitos, por conta da gravidade. Por mais que existam métodos que minimizem isso, no espaço, sem a gravidade, esses cristais crescem muito mais homogêneos e muito mais simétricos”, detalhou o ex-servidor da AEB), para demonstrar a relevância da operação.
O teste realizado no Brasil é feito com um foguete de nove metros de comprimento, o equivalente a um prédio de três andares, que vai levantar voo a um ponto superior a 100 km de altitude, cerca de 10 vezes mais alto do que um avião comercial. (veja no infográfico abaixo)
O país já utiliza plataformas que funcionam como laboratório espacial, mas compradas do exterior. Caso o teste dê certo, o Brasil poderá garantir lançamentos periódicos com um equipamento nacional.
“Seremos capazes de produzir nossa própria plataforma. É um avanço na direção de nossa autonomia em voos suborbitais”, afirmou o presidente da AEB, Marco Antonio Chamon.
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Testes do novo modelo são feitos na Barreira do Inferno, em Parnamirim, na Grande Natal — Foto: FAB/Divulgação
Como funcionam foguete e plataforma
A Plataforma Suborbital de Microgravidade foi enviada acoplada na parte superior do foguete brasileiro VS-30 V16.
Desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), o VS-30 V16 é considerado um foguete suborbital, ou seja, não foi feito para permanecer em órbita, mas atingir altitudes superiores a 100 quilômetros.
“Esta plataforma suborbital de microgravidade é usada para levar experimentos até acima de 100 km, o que já é considerado espaço, e permanecer na condição de microgravidade em um tempo de 6 a 8 minutos”, explicou Luis Cláudio de Oliveira Silva, professor do curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Ele explicou que, depois do voo, a plataforma retorna presa ao paraquedas para que os experimentos embarcados possam ser retirados e analisados.
Segundo o especialista, o foguete ejeta a plataforma, que aciona um sistema de estabilização e fica “parada”. “Nesse momento os experimentos são acionados”, ressaltou.
Rui Botelho completou dizendo que o motor do foguete é ligado por cerca de 30 segundos e, em seguida, viaja em uma parábola. A plataforma, em certo momento, se desacopla do foguete e segue para atingir o ponto mais alto desse trajeto.
“Ele vai chegar a uma altitude próxima do espaço, algo em torno de 100 km, um pouco mais, um pouco menos, vai depender muito do perfil da missão. E, quando estiver chegando na parte mais alta dessa parábola, passa-se ter a sensação de quase falta de gravidade, a microgravidade. É nesse momento que os experimentos são realizados. E eles são testados ali”, explicou.
Fonte G1RN



